Nosso Sinal caiu definitivamente!
– Hassin, Hassin…
– É sua mãe…
A cena – do filme “A Fonte das Mulheres” (La Source des Femmes, Bélgica/França/Itália, 2011), dirigido por Radu Mihaileanu – é estonteante! Ela está montada em um burro cheio de bolsas e bugingangas, vestida com uma tradicional roupa de algum vilarejo em algum lugar entre o norte da África e o Oriente Médio, caminha ali na beirada do deserto, a falta de água é evidente e o sol imperador queima como o deus do antigo testamento ou dos mulás islâmicos. E então ela diz:
– Alô, alò.
A câmera gira e vc percebe, eu percebo, todos percebem que ela está falando em um celular. A cena é milenar, antiga, imemorial, desértica, a não ser pela inusitada experiência dela estar falando em um celular..
—Hassin, Hassim… É sua mãe… Como você está? Aló, alò, alò – e a câmera que enquadra a personagem se revesa em perto, quase perto, longe, em pleno deserto e o alô ecoa por toda aquela eternidade de vento e areia…
— Caiu o sinal… – Ela diz desapontada e briga com o burro — Volta burro – como se a queda do sinal fosse um descuido dele, burro: – Volta… sem sinal, maldito… vou vendê-lo no mercado mais próximo..
Quando uma imagem vale mais do que mil palavras! Quando uma sequência de imagens vale mais do que mil explicações esotéricas! Sim, éramos mais uma vez nós: cada um de nós, em sua misteriosa experiência de estar vivo e pertencer à espécie humana em pleno século XXI! Um ser incompreensível, estupidamente sem sentido, incontestavelmente perdido na fronteira do deserto infinito! Nós, iludidos com nossas bugingangas tecnológicas, nossos brinquedos tablets, nossas engenhocas smarts. Nos sentimos modernos, rompendo distâncias com nossos campos eletromagnéticos artificiais, ali sempre na beira do deserto, em cima de burricos, com nosso excesso de bolsas, e nossas roupas tradicionais de séculos atrás, nossa ética ultrapassada, nossos sentimentos religiosos de antes de sermos macacos. Somos seres aberrantes, misturas de eras antigas com momentâneos futuros, sem sinal!!! Sempre sem sinal!!! Mas o único sinal que perdemos foi o do sentido de nossa vida nesse misteriosos e maravilhoso deserto, como diria D.Juan pela milésima vez à Castañeda para ver se ele finalmente sabia, o que só conseguia esquadrinhar com sua mente celular. E somos patéticos pois achamos que a culpa é do burrico… Sim, nosso sinal caiu, W, definitivamente! Nunca iremos falar com nosso filho pródigo Hassin! E nem com o deserto sílico e extraordinário, presentemente, a nossa frente! Nele, quando um dia, a águia estará pronta para nos devorar!
Veja trailer legendado: http://mais.uol.com.br/view/12448878 . Em um vilarejo em algum lugar entre o Norte da África e o Oriente Médio, as mulheres se rebelam contra a tradição e iniciam uma greve de sexo até que os homens assumam a tarefa de buscar água em uma fonte distante. Com Leïla Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Sabrina Ouazani. © Paris Filmes


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